quinta-feira, 8 de abril de 2010

Polícia para quem precisa



Na sexta-feira santa, eu fui a um churrasco no Méier, Zona Norte do Rio de Janeiro: um lugar bem bacana, mas naquela parte da cidade onde a chapa esquenta. Saímos às 4:00h, e tomamos um táxi em direção à Zona Sul, onde eu e uns amigos moramos, e onde a chapa esquenta menos, por assim dizer. Veio uma blitz e parou nosso táxi. O policial nos mandou descer do táxi. Nos revistou. Perguntou se tínhamos algum baseado conosco. Até aí, ok. É desconfortável, mas é o trabalho dele. Mas ele cheirou nossas mãos para verificar se nós tínhamos fumado maconha. Ele perguntou de onde a gente estava vindo, ao passo em que eu respondi que estávamos vindo de um churrasco de um amigo nosso no Méier. Ele perguntou se não estávamos no baile da Mangueira, ao que respondi que não. Perguntou de novo, ao que reiterei a negativa. Ele nos liberou dizendo “Salvos pelo taxímetro.”

Depois eu fiquei pensando. Cara, isso está errado. isso está MUITO errado. O policial tem o direito de parar nosso carro e nos revistar. Mas ELE NÃO PEDIU NOSSOS DOCUMENTOS! Ele cheirou a minha mão (nem a minha mãe cheira a minha mão!). E qual o sentido de ele dizer que fomos “salvos pelo taxímetro?” Por que, qual o problema haveria de estarmos curtindo o baile funk na Mangueira? É proibido? E se eu tivesse fumado e minha mão tivesse com cheiro de maconha e eu não tivesse nada comigo? Se eu tivesse fumado no Méier, o quê que ia acontecer? A sensação que passou foi a de que os policiais queriam que nós tivéssemos qualquer erro (qualquer!) pra conseguirem um dinheiro de propina e garantir os ovos de páscoa dos seus filhos no domingo. Com o perdão da expressão chula: se fuderam.

Teve uma outra vez, em que eu estava andando sozinho na Lapa, e quando passou a viatura, eu acabei, coincidentemente, dando meia-volta. Eu tinha percebido que a rua em que eu acabara de passar me levaria mais depressa ao meu destino. Mas daí, veio a viatura e me tomou como suspeito. Perguntaram da onde eu vinha, e eu estava bem nervoso por outras razões. Me revistaram, eu fiquei nu, dessa vez eu me senti bastante humilhado. Viram que eu não tinha nada (eu não sou usuário de drogas), mas me disseram um “Olha só, fica esperto.”

Eu fico pensando que essas coisas ocorreram comigo, que sou um cara estudado, de classe média. Nessas horas, você vê como é complicado negociar com um policial, com alguém que tem uma arma na mão e um poder instituído. Talvez seja mais difícil do que negociar com um bandido, porque eles se sentem poderosos mesmo. Afinal de contas, o que eu poderei fazer, chamar a polícia?

Eu confesso que eu sou um ferrenho defensor das UPPs, as tais Unidades de Polícia Pacificadora. Acredito neles não como um modelo de enfrentamento puro e simples (como é o caso do Bope e seus “caveirões”, que eu abomino), mas sim, como uma política pública de longo prazo. Mas algumas reflexões posteriores me levaram a um tipo de medo. Eu confesso que eu tenho medo do aumento súbito do efetivo e do poder da polícia. Porque são pessoas que, verdade seja dita, não são treinadas para lidar com seres humanos. São treinados para não negociar, e para tratar as pessoas como animais.

Fico pensando no que acontece por aí afora, na Baixada Fluminense, onde a chapa esquenta mais ainda. Eu tenho a sensação de que a truculência policial não tem limites. Porque, no fundo, não há NADA que me garanta que se eu tentar entrar numa discussão de negociação com um policial e entrar na viatura, ele não vai me matar e jogar meu corpo no caminho em vez de me levar pra delegacia. Às vezes, eu tenho medo da polícia, e eu não sei se é certo. Eu não sou culpado de nada e eles, em tese, estão ali pra me proteger dos outros. Mas e deles, quem me protege? Confesso, tenho medo.

E a verdade nua e crua é que a questão da truculência policial e da falta de critério para a abordagem policial não entram em discussão porque a classe média não está nem aí; porque uma blitz como essa, na qual TODOS os carros eram parados, sem distinção, não vai nunca ocorrer nas ruas tranqüilas e pacatas do Leblon, por onde circulam os bacanas e seus filhos. Esse tipo de coisa não entra em discussão nunca e nem vai entrar porque a classe média (e o Jornal O Globo, que monopoliza a mídia impressa no Estado do Rio e faz reverberar o pensamento da elite do Leblon por todo o Rio de Janeiro), porque estão todos eles encantados com a valorização dos seus imóveis, encantados com a polícia e seu poder de fogo legalmente instituído.

Eu pensei em escrever pro jornal, contar o que aconteceu, dizer pra polícia que não dou a NINGUÉM o direito de cheirar a minha mão. Mas eu não anotei a placa das viaturas. Na delegacia, iriam fazer chacota, dizer que é assim mesmo. O jornal talvez nem publicasse. A gente vai acreditando mesmo que tudo isso é muito normal.

Mas lá fora, longe das UPPs, d’O Globo, e da Zona Sul, lá onde a chapa esquenta, a polícia age e vai continuar agindo como se não houvesse lei que a regulasse, mais ou menos da mesma forma que os bandidos.

Um comentário:

Yuri Cherem disse...

isso é, de fato, o mais diferente texto que eu já li seu. Algum motivo especial para essa indignação toda?

ps: eeei! o meier é legal. e a chapa nao esuqenta tanto assim! e nem tem maconha.... mentira tem sim, só nao sei onde! auahsas